Farewell, my love. Farewell, my tiny little friend (escrito em 2022)

 No dia 10 de novembro deste ano (2022), Cãmila, minha gata de 14 anos morreu. Ela morreu e tudo está pior agora. 

Eu a achei na rua quando ela era apenas um filhotinho abandonado que cabia na palma da minha mão. O rabinho dela era do tamanho do meu dedo médio. Isso foi em 24 de janeiro de 2009, era sábado à noite, perto das 22h, e eu estava voltando de algum rolê na avenida Paulista. Nessa época eu tinha 19 anos e tinha horário pra chegar em casa. Lembro que nesta época eu estava enchendo a paciência da minha mãe pra me deixar ter um gato, e ela chegou a me dar até um gatinho de plástico de uns 8 cm e disse "esse é o único gato que vai entrar nesta casa". Dias depois apareci com a Cãmila, que ainda não se chamava Cãmila. E lembro que eu estava sem a chave da entrada, então tentei esconder a gata, mas assim que minha mãe abriu a porta para que eu entrasse, ela miou, então eu mostrei a bichinha pra ela e falei "surpresa!". 

Por alguns motivos, tive que deixar a gata com um "amigo" da época, que foi quem colocou o nome dela de Cãmila (com til e tudo). Mas este "amigo" negligenciava a bichinha, então num sábado após sair do meu trabalho, perguntei se eu podia pegar a gata pra passar o fim de semana comigo "como se fosse filha de pais separados". Peguei a gata e nunca mais devolvi. E fiquei obcecada. Eu só sabia falar dela. Era Cãmila pra cá, minha gata pra lá, levei ela no trabalho um dia para apresentar para o meu chefe, tirava um milhão de fotos dela, sonhava com ela todas as noites, sonhava que conversávamos, uma vez sonhei que ela se metia numa batalha de dança imitando a Beyoncé e acordei chorando de rir. 

Quando eu passei na faculdade de Letras e tive que ir morar com minha tia pois era mais perto do campus, eu não pude levar Cãmila para morar comigo pois meus primos eram extremamente alérgicos, mas eu a levei no dia da mudança para que ela conhecesse onde eu ia morar. Lembro da caixinha de transporte rosa dela em cima da minha mala. Na primeira noite na casa da minha tia, eu dormi com um gatinho de pelúcia branco de olhos azuis debaixo do travesseiro e deixei cair algumas lágrimas de saudade da minha gatinha. 

Quando eu já tinha parado a faculdade de Letras e tinha passado no concurso para trabalhar numa universidade perto do meu antigo bairro, voltei a morar na casa dos meus pais. Eu chegava do trabalho todo dia por volta das 18h. Eu chegava e assobiava de um jeito bem específico, e de longe já ouvia ela miando. Questão de segundos ela já aparecia no telhado e descia correndo, toda ágil, e vinha me cumprimentar me dando cabeçadinhas e roçando nas minhas pernas enquanto eu abria a porta da cozinha. E ela tinha que ser a primeira a entrar em casa, sempre. 

Cãmila conheceu quase todas as pessoas que eu namorei. Também conheceu quase todos os meus amigos. 

A Cãmila não era uma gata muito mansa, não. Ela tinha uma personalidade forte, encrenqueira, rabugenta. Vingativa. Se você a perturbasse demais, certeza que a retaliação viria mais tarde, com ela te emboscando no corredor e pulando no seu tornozelo. Ou simplesmente virando a dentada em você, onde quer que pegasse, se você a perturbasse demais. Eu tenho um monte de cicatriz por causa dela. Cicatriz não, marcas de um amor tóxico, risos. A gata era tão virada no Jiraya que, mesmo aos 14 anos, paciente renal, magra e seca, intimidava meu cachorro Scooby só na base do resmungo. Camila pesando 3 quilos e Scooby pesando 14. A gata era tão marrenta que, quando mandamos castrá-la, devolveram a gata em casa sem castrar, com data remarcada, e uma dose de tranquilizante para aplicar nela meia hora antes de sair de casa porque simplesmente não conseguiram domá-la na clínica e a veterinária ficou com medo. 

Cãmila tinha uma fixação esquisita em pêssegos. Todo fim de ano, se minha mãe comprasse pêssegos e descuidasse, Cãmila subia no móvel da cozinha e unhava todos os pêssegos que alí estivessem, eventualmente jogando alguns no chão. Só pelo prazer de unhar. Inclusive, ela tinha umas unhonas enormes de velha que dava pra desfiar um frango em segundos, se ela quisesse. Curiosamente, ela nunca gostou de frango ou carne de boi, só de salame. E por falar em unhas, ela sozinha conseguiu destruir, em dois anos, uma poltrona todinha, na base do arranhão. Ela gostava muito de tomar sol também, passava as manhãs todas deitada no quintal tomando sol. Depois de velha, parecia um paninho de chão ariando no sol, todo branco e mastigado. Mas quando ela estava no auge físico dela, Cãmila era musculosa, parecia uma pantera. 

Quando meu pai deitava no chão do quintal, de vez em quando, pra tomar sol, ela deitava juntinho dele, porque ela tinha uma paixão enorme pelo meu pai. Meu pai tinha um pouco de medo dela. Por falar em paixão, Cãmila tinha uma paixão absurda pelo meu último ex-namorado. Nunca vi ela tão grude em alguém quanto ela ficou de grude nele. Era um amor, um grude, uma coisa tão esquisita que eu falava pra ela direto que este amor seria impossível, existia uma barreira de espécies entre eles. Mas o coração felino quer o que o coração felino quer, não é? Há uns 3 anos, Cãmila fazia um tratamento para os rins que consistia em aplicação de soro subcutâneo a cada 15 dias pois os rinzinhos dela já estavam prejudicados, e quem aplicava este soro era eu. E, apesar dela parecer uma onça no veterinário, e precisar de três homens adultos para segurá-la, em casa ela deixava eu aplicar o soro direitinho nela, não reclamava (não sempre, pelo menos), não me arranhava, não me mordia. Eu espetava a agulha nela, abria o conta gotas do equipo, e ficava dando beijinhos na cabeça dela até o soro acabar. Ela parecia saber que era para o bem dela.

Em outubro deste ano (2022) eu fui viajar e falei para a Cãmila antes de ir para o aeroporto: "Mimilinha, se você for morrer, espera eu voltar, por favor". Sei que parece mórbido, mas eu sentia que alguma coisa aconteceria. Uma sensação esquisita, sabe? Pois bem, voltei, e Cãmilinha estava meio mal. Depois de uns dias, parou de comer, parou de beber água, não conseguia andar. Corri com ela para o veterinário, onde foi internada. Mas eu sentia, eu sabia que ela não sairia de lá. Chegou a quinta-feira dia 10. Fui visitá-la na internação, como eu fiz todos os dias em que ela esteve internada. A veterinária foi franca comigo, Cãmila não tinha mais chance de recuperação, não estava mantendo temperatura, medicação não funcionava, os indicadores dos exames de sangue todos não estabilizavam de maneira alguma, e ela estava com dor e sofrendo demais. E aí me foi dada a opção mais "humana" possível, e a mais difícil que já tive que tomar nestes meus 33 anos de vida. A assinatura mais dolorida da minha vida. Peguei meu amorzinho no colo igual um bebê, ela estava tão magrinha. Dei um monte de beijinhos e a equipe veterinária me deixou alguns minutos com ela para eu me despedir. E aí conversei com minha bichinha branca, agradeci por todos os anos ao meu lado, falei que todos nós em casa sentiremos saudades, que o meu irmão tinha acendido uma vela pra ela lá na Áustria, que ela foi e sempre será muito amada, e expliquei que todo o mal estar e dor parariam em breve. Eu, que não sou de rezar, rezei com ela no meu colo. Dei beijinhos nas patinhas dela, no focinho. E aí a veterinária veio e deu um calmante para a Cãmila, para ela ir relaxando. E, depois, deitamos minha gatinha na mesa de alumínio, em cima de cobertores, e eu fiquei fazendo carinho no focinho dela do jeito que ela sempre gostou, enquanto a veterinária aplicava a medicação que pararia o seu coraçãozinho rabugento. 

Cãmila faleceu por volta das 20h, e, com ela, morria alí uma parte de mim. Ela esteve presente em uma grande parte da minha vida, e eu pude ficar com ela até o fim da vida dela, até o último segundo. Como diz uma música do Death Cab for Cutie: "Love is watching someone die".

Descanse em paz, meu amorzinho. 

Descanse em paz, minha amiga tão querida, companheirinha de vida.

 



 

 

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